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Marâiwatsédé: A terra roubada dos Xavante

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Maraiwatsede é Xavante

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A esperança indignada: um perfil de Pedro Casaldáliga

Maria Júlia Gomes Andrade, São Félix do Araguaia, Dezembro de 2013

“Você tem que falar da história da região”, me disse o Pedro assim que cheguei à casa dele, no dia 9 de Dezembro. Ao saber que a revista Caros Amigos havia pedido que eu fizesse um perfil dele, como uma homenagem, Pedro me respondeu por email: “Querida Maria Júlia, eu fico agradecido pelo seu carinho, mas fico muito sem graça com essa homenagem da Caros Amigos. Em todo caso você responderá pelo que escreva. E lhe peço que destaque, sobretudo, o caráter comunitário de toda nossa luta. Eu sou apenas uma peça da engrenagem.”

Não consigo pensar em nada mais Pedro Casaldáliga do que estas palavras. É notório para quem minimamente conhece a história da Teologia da Libertação, da Igreja Católica Brasileira nas últimas décadas e da história da região do Araguaia que Dom Pedro Casaldáliga está entre aqueles imprescindíveis do poema do Brecht. Mas ele se sente apenas como uma peça de uma engrenagem a serviço de algo maior. “Minhas causas valem mais do que a minha vida”, já dizia ele em uma de suas frases mais famosas. Concordando e respeitando o desejo de Pedro, é preciso ressaltar que as causas pelas quais ele lutou desde que chegou ao Brasil estão muito longe de se resolver. As questões de fundo que permearam toda atuação do bispo Pedro na região continuam – infelizmente – extremamente atuais.

Pedro Casaldáliga, Catalão, ainda padre, chegou na região do Araguaia em 1968. A sua viagem de Goiânia até São Félix, que hoje dura em média dura hoje 24 horas, levou 8 dias. Era um lugarejo na beira do Rio Araguaia que não possuía uma escola, nem um posto de saúde. A primeira escola e a primeira assistência decente de saúde foram feita, justamente, por ele e por sua equipe. A população do povoado era formada, basicamente, por pequenos posseiros, e habitam, também, na região indígenas Xavante, Tapirapé e Karajá. Toda a região vivia a intensa expansão do “progresso”: territórios sendo loteados e vendidos pelo Governo Militar para as grandes companhias agro-pecuárias. Territórios que eram ocupados por populações, como aldeias indígenas, vilas e mesmos municípios inteiros! Muito rapidamente Pedro Casaldáliga percebeu que a grande situação de conflito era a terra: indígenas e os pequenos posseiros de um lado; e as grandes fazendas latifundiárias de outro. E tomou partido. Do lado dos pobres.

No ano de 1971 Pedro Casaldáliga é sagrado bispo, a região de atuação da Igreja se torna uma Prelazia, e ele aproveita a visibilidade deste momento para lançar um documento basilar no qual denunciava a atuação das fazendas agropecuárias e a total parceria destas com o Governo Militar.  “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” é o nome do texto, que se tornou uma referência de imediato. Impresso clandestinamente e espalhado de maneira conspiratória por muitos, o documento desvelou as inúmeras situações dramáticas que os posseiros, indígenas e trabalhadores destas fazendas (em situação de trabalho escravo) vivenciavam. E como é atual o que o Pedro escreveu em 1971!

Sentimos, por consciência, que também nós devemos cooperar para a desmitificação da propriedade privada. E que devemos urgir – com tantos outros homens sensibilizados – uma Reforma Agrária justa, radical, sociologicamente inspirada e realizada tecnicamente, sem demoras exasperantes, sem intoleráveis camuflagens. A injustiça tem um nome nesta terra: o Latifúndio. E o único nome certo do Desenvolvimento aqui é a Reforma Agrária.

A situação é dolorosamente atual porque não estamos falando de histórias do passado. Este ano aconteceu uma situação dramática em um município perto de São Félix, em Luciara, envolvendo uma população tradicional – os Retireiros – e alguns fazendeiros da região. O coração da questão, novamente, é a terra. Em Setembro deste ano as entradas da cidade de Luciara foram todas bloqueadas em manifestação contra a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), pleiteada pela população de Retireiros de Luciara. Há cerca de um século, os Retireiros vivem da criação coletiva de gado em uma área de Luciara. Trata-se de cerca de 100 famílias, num total de 450 pessoas, que utilizam nos meses que não chovem (maio a setembro) o leito do Rio Araguaia, para pastagem do gado. Na época de chuva, o Rio sobe, e se dirigem para a terra mais alta. Para ali levam o gado e também, extraem dessas matas diversos tipos de plantas, sementes e raízes para o consumo próprio e para diferentes necessidades das famílias. Essa terra alta é a área em disputa. É uma terra da União, recentemente grilada por fazendeiros visando o plantio da soja.

Na tensão do final de Setembro, um ônibus com estudantes de Geografia da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) que iria fazer um trabalho de pesquisa na região foi tomado por técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e proibido de entrar na cidade, ameaçado e seguido por algumas horas na estrada. A casa de duas lideranças retireiras foi queimada, várias lideranças foram ameaçadas e foram disparados tiros contra a casa de Zecão e Rita.

José Raimundo, o Zecão, e Rita, ambos professores, se mudaram para Luciara em 1990, vindos de São Paulo. Queriam se somar à experiência da Prelazia. Vieram com as filhas de apenas alguns meses: Dandara Terra e Naiara Terra. Alguns anos depois nasce o Matheus Terra, afilhado de Pedro. Os três filhos passaram toda infância e adolescência em Luciara e hoje vivem em São Paulo, onde trabalham e estudam. Há pouco mais de 10 anos, Zecão foi consagrado diácono por Dom Pedro. Zecão e Rita de converteram nesses mais de 20 anos em algumas lideranças mais importantes da Igreja da região, e em pessoas de maior confiança de Pedro. Não é um acaso que tenham sido eles as pessoas mais ameaçadas. Quando aconteceu o cerco à Luciara eles estavam fora da cidade. O que também já foi confirmado não ter sido apenas uma coincidência. E a situação de tensão chegou a um ponto em que eles simplesmente não puderam voltar. Os amigos de Luciara, preocupados com nível das ameaças, pediam que não voltassem. Sem lugar, se dirigiram para São Félix para conversarem com o Pedro sobre o que fazer.

Rita narra os detalhes daqueles dias sombrios: “O que a gente faz?”, era o que nos perguntávamos, conta a Rita. Pedro nos disse de imediato: “Vocês ficas aqui na casa com a gente”. Ela continua: “Pedro intermediou, pessoalmente, todos os contatos com o Governo Federal. Além da acolhida, se não tivesse tido o contato direto do Pedro no âmbito federal, não teria tido nenhuma visibilidade para o que aconteceu em Luciara. E nós nunca pudemos voltar para a nossa casa. Passamos um mês com uma mala de roupa. Não voltamos em Luciara nem para pegar a mudança. Alguns vizinhos solidários organizaram tudo pra nós e enviaram. A equipe federal de proteção a testemunhas ficou aqui com a gente e falavam: a situação ainda está tensa, vocês não podem voltar. A gente pensa então: por que a gente precisa de tanta coisa? A gente vê que não é nada e que a essência da vida é ser justo, ser honesto, denunciar essas coisas. Quando a gente mais precisou é que entendemos porque a gente vive, que é uma causa. Mesmo que não consigamos muito, é a denúncia. A gente tem a certeza do que devemos fazer.”

Zecão acrescenta: “Um dia que estava muito chateado com tudo isso que estava acontecendo com a gente, perguntei para o Pedro como ele assimilava as ameaças que ele recebeu a vida toda, como ele lidava com isso. Pedro me respondeu: ‘peço ao Divino para transformar a raiva em esperança indignada. E assim fico aliviado’. Nosso coração tem que ser assim, cada vez mais largo, relativizar. Não é ceder politicamente, é não guardar ódio. Eu choro, eu me emociono, e isso me fortalece. Alguns às vezes falam que sou muito emotivo. Mas uma vida sem paixão é uma comida sem tempero. É a paixão que move a gente.”

Esta situação de Luciara se conecta ao caso da desintrusão da área Xavante de Marãiwatsédé, ocorrida em 2012, localizada a cerca de duas horas de São Félix. Em documento de 1970, “Escravidão e Feudalismo no norte do Mato Grosso”, Pedro já havia sinalizado: Os próprios índios foram literalmente expulsos em vários pontos da região pela invasão das fazendas latifundiárias. E é exatamente essa a história dos Xavante de Marãiwatsédé. Expulsos com aviões da FAB em 1968 e realocados em uma área distante do Mato Grosso. No percurso desta ida, morreram dezenas de indígenas. Fato que seria provavelmente um escândalo, senão se tratasse de indígenas de uma região remota do Mato Grosso.

Os Xavante nunca desistiram de retornar para Marãiwatsédé. Sempre empreenderam viagens para o local. Estrategistas, pediam aos gerentes da fazenda que os deixassem visitar o cemitérios dos antepassados, mas uma vez dentro da área, mapeavam cada nova intervenção, cada derrubada de mata e cada beneficiamento que era feito. No início da década de 1990, quando decidiram iniciar toda a articulação política para a volta, tinham o mapa detalhado de tudo que havia sido feito no local nos últimos 25 anos. Conseguiram iniciar um processo demarcatório e ter a terra homologada em 1998. Mas os políticos locais se articularam nesse meio tempo: organizaram a ocupação de uma área no coração da área Xavante, para tentar barrar o retorno dos indígenas. Inventaram de um dia para o outro uma cidade: Posto da Mata. E argumentavam que estavam, então, há muito mais tempo que os indígenas na região. Finalmente, em 2012, o Governo Federal coordena a desintrusão da área retomando, em definitivo, a terra para os Xavante. A postura do Pedro, novamente ao lado dos indígenas, rendeu um muro pichado na Igreja da cidade de Alto de Boa Vista em 2004 – “Fora bispo comunista” -, e ameaças mais sérias no final de 2012, que o fizeram, pela primeira vez, aceitar a se retirar de São Félix por algum tempo, com a proteção da Polícia Federal. Ele retomou logo no início de 2013, não queria ficar mais longe.

Estes mesmos articuladores anti-Xavante de Posto da Mata e região se deslocaram para Luciara este ano, para dizer em audiências públicas: “Cuidado, pode acontecer com vocês o que aconteceu com a gente. Eles querem acabar com Luciara e deixar toda a cidade para os Retireiros.” E falas como essa surtiram enorme efeito: quase a totalidade da população de Luciara é contra a Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Ainda que se trate de terra da União, grilada por meia dúzia de fazendeiros. E enquanto isso, as lideranças dos Retireiros ou seus apoiadores, continuam recebendo intimidações freqüentes. “Reforma agrária aqui como em outras partes do país e do mundo não é uma ilusão subversiva. Não pode ficar sendo uma fraude publicitária. Nem se pode adiar.” Afirmava o Pedro no documento-denúncia de 1970. Mas nesse quadro é certo que a solução para a situação dos Retireiros será sim adiada. Os latifundiários grileiros agradecem.

A verdade é que a desintrusão da área Xavante de Marãiwatsédé fez com que outras situações ficarem à flor da pele. Estamos lidando aqui como questão de fundo, com o avanço da soja. E com a política de transformar a região do baixo Araguaia na nova grande fronteira da soja do Mato Grosso. A terra Xavante barrou – pedra do sapato – a expansão. A Igreja defendida por Pedro e seus seguidores é outra pedra do sapato. E a RDS dos Reitireiros, uma potencial ameaça.

Pedro também é poeta. O tema do povo do Araguaia, com todas as suas dores e vida, foi um dos mais recorrentes nos seus poemas. Penso no que aconteceu em Luciara, na postura solidária do Pedro com os amigos e com os Retireiros, e me vem sempre este poema, uma evocação do caminante no hay camino, se hace camino al andar do poeta espanhol Antônio Machado:

Retirante, só caminho é que há./ Terra de roça e morada não tem mais. Os sete palmos de outrora nem todos vão encontrar!/ Retirante, caminheiro, só caminho é que há./ Caminho que a gente é, caminho que a gente faz:/ Para viver, para andar; para outros caminheiros se ajuntar./ Caminho para os parados se animar./ Para os perdidos de novo achar./ Para os mortos não faltar!/ Caminho que a gente é, caminho que a gente faz./ Se tem cerca, não tens braços e facão para cortar?/ Se a noite fechou-te o rumo, procura junto aos irmãos:/ Coração em companhia, sempre encontra seu luar./ Caminheiro, companheiro, só o caminho é o que há:/ Caminho que a gente é, caminho que a gente faz!/ Por ora, isso é o que há…/ Mas, um dia, o mundo vira e tem o que haverá!

Dom Pedro Casaldáliga completou 86 anos em Fevereiro deste ano. Há 25 anos convive com o “Irmão-Parkinson”, como ele gosta de dizer. Esse convívio prolongado foi impondo cuidados, e limitações. Nos últimos anos não é mais possível para o Pedro escrever, e, assim, responder pessoalmente as muitas mensagens que recebe diariamente. Mas nunca faltaram mãos amigas para acompanhar junto com ele o correio e a caixa emails, mantendo desse modo a tradição: todas as mensagens são respondidas.

Durante todo o dia passam pessoas na casa para visitar o Pedro, que segue sendo uma casa de portas literalmente abertas. As pessoas do povo sempre o chamaram simplesmente de Pedro. Ou mais raramente, de “bispo Pedro”, o que , também não deixa de ser carinhoso. A forma de tratamento do povo com Pedro Casaldáliga diz muito da relação que ele estabeleceu com o povo. Lembro-me sempre da primeira vez que estive em São Félix, em 2003, e os risos que despertavam quando o chamava de “Casaldáliga” ou a nominação completa “Dom Pedro Casaldáliga”. Seria compreensível que as limitações do Parkinson o tivessem tornado uma pessoa sombria ou enfadada com tantas visitas. Mas é exatamente o contrário. Pedro recebe todo mundo bem. Sempre e a todos. E pergunta pelas coisas concretas da vida, e dá a benção e brinca. E brinca muito! Em 2009 eu cheguei à casa dele para uma nova visita e me assustei de vê-lo, pela primeira vez, usando uma bengala. Ele certamente percebeu a minha expressão de preocupação e pena, porque olhou na mesma hora para mim e disse: “é para espantar os cachorros”. Talvez o humor tenha sido nesse momento da vida alguma forma de proteção. Pode ser. Ele não reclama da sua condição, ele brinca. E isso é algo absolutamente incrível… As moléstias da saúde não tiraram a característica ironia fina do Pedro – chamar de “irmão-Parkinson” é o que?

E a casa é tão carregada de significado! Uma casa simples, como a de qualquer sertanejo. Com pinturas só do lado de fora, as paredes de dentro são a tijolo à mostra, cheia de quadros, objetos indígenas, fotos, cartazes, artesanatos de diferentes países por onde o Pedro andou ou por onde moram tantos amigos da Prelazia. “Não tem nada aqui à toa, Maria Júlia, tudo tem um significado”, me disse em 2003, quando cheguei à casa pela primeira vez e ficava completamente encantada observando cada detalhe, querendo saber a história de cada um dos objetos. Para não cansar o Pedro, não perguntava sempre, mas como queria… Sei que a pequena cruz de couro foi dada por ele por Frei Beto, quando este se encontrava preso no presídio Tiradentes, no começo dos anos 70. Sei que a foto da velhinha toda enrrugadinha que nos olha sorridente na cozinha foi tirada por Carlos Moura, um dos agentes pastorais mais importantes da história da Prelazia, em uma viagem que fez para o interior do Piauí. E sei que têm muitos enfeites Karajá, Tapirapé e Xavante numa mostra de carinho e amizade com o velho bispo, companheiro de verdade nos conflitos que vivem os indígenas da região. Em todos os dias dessa semana de Dezembro em que estive no Araguaia passaram Karajá pela casa do Pedro. No contexto de um lugar carregado de preconceito contra indígenas como São Félix, o “palácio episcopal” de portas abertas, sempre foi um refúgio para os Karajá, Tapirapé e Xavante que passam pela cidade.

A sagração de bispo de Pedro Casaldáliga não foi apenas um momento de denúncia. Aconteceu ali um gesto ainda mais profundo de compromisso pastoral e político com uma causa. Uma simbologia encarnada da Teologia da Libertação. Pedro renunciou a alguns clássicos símbolos: no lugar da mitra, um chapéu de palha sertanejo; no lugar do báculo, um remo Karajá, entregue por uma liderança deste Povo; e no lugar do anel de ouro, um anel de tucum. Incentivado por outra grande figura da Teologia da Libertação, Dom Tomás Balduíno, Pedro aceitou o novo desafio de se tornar bispo. Mas com um ritual em outros termos. No convite para a sagração, Pedro escreveu:

Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas, e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.

Teu báculo será a Verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti.

O teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e a fidelidade ao povo desta terra.

O anel de tucum se converteu, desde então, em um símbolo. Em um primeiro momento, significava: quem usar este anel está assumindo a causa dos povos indígenas. Mas logo se tornou algo ainda maior: assumir o compromisso com as causas dos pobres, dos marginalizados, da transformação social. Muitos militantes usam este símbolo e, de alguma maneira, se reconhecem. E quantos casais não trocaram o anel de tucum como aliança de casamento? Tucum é o coquinho de uma palmeira muito comum na Amazônia. É um coquinho duro, resistente. E o caule da sua palmeira é lotado de espinhos, bem compridos e pontiagudos. Como diz o Pedro: são espinhos bravos; esse caminho não é uma moleza… No filme que fizeram em 1994 inspirado nessa história, D. Pedro aparece no final e explica ao protagonista o significado “desse anel preto”: “é o anel de tucum, uma palmeira da Amazônia, sinal da aliança com a causa indígena, com as causas populares. Quem carrega esse anel normalmente significa que assumiu estas causas e as suas conseqüências.” E pergunta ao final:  “Você toparia levar um anel? Topa? Olha, isso compromete, viu? Queima.”

Topam?

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