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Revista SINA: Um outro Natal é possível?

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Crianças mouras

Crianças mouras

Um outro Natal é possível?

Luiz Augusto Passos*

fonte: Revista Sina de 19/10/2013

(http://www.revistasina.com.br/portal/articulistas/item/4060-um-outro-natal-%C3%A9-poss%C3%ADvel?)

onfesso que estou cansado do Natal passado à limpo pela tradição branca-européia capitalista. Conseguiram pegar um menino mouro escuro, semi-beduíno-judeu e transformá-lo num menino Jesus ariano, louro, reconchunchudo e de olhos azuis.



Derreteram as diferenças para que um certo menino vestido de carne e osso, não tirasse o sono de ninguém. Transformaram-no num quase anjo, sem corpo, não fosse a pressão da Igreja primitiva de definir que ele era “verdadeiramente homem e verdadeiro Deus” Ainda que isso parecia anômalo e perigoso para a religião. Não é à toa que foi matado pelos Judeus por ser pouco religioso, relativizar o espaço sagrado – O Templo – e o tempo sagrado – o Sábado!

Às vezes me pergunto como pode tanta euforia e alegria natalina por este fato histórico tão subvertedor da ‘ordem’?

Só quem levou a sério a estrela, compreendeu, reconheceu os anúncios dela, foi Herodes. Ele foi um dos poucos que acreditando na profecia havia enxergado, por trás da fragilidade dum recém-nascido, a ameaça iminente de um terremoto para o poder.

E tomou suas providências para evitar o pior. Mandou matar todos os recém-nascidos.
Afinal de contas, na prática, fomos abalroados pela eternidade, pela emergência dela, em CARNE, na História: Platão teria abominado isso. Uma divindade transcendente, que perverteu a regra romana e positivista, decidindo imiscuir-se nas coisas que sucediam no mundo debaixo da lua. Não devia!

Sem cerimônia chegou, pôs sua tenda entre nós “assumindo a condição de homem em tudo, menos no pecado” (Filip. 2, 5-11) – o que é óbvio – porque ainda que tantos afirmem o contrário, o pecado não é humano – é antihumano! – é a destruição da humanidade que pode e deve estar em nós, e que foi tão sonhada por Deus!
Laconicamente diz Hebreus: “Deste-me um corpo…(Rom 10,10) Vim, por isso, para fazer a tua vontade”. E lá se foi nossa mesmice e nosso sono! Era rebentada a bitola humana pela eternidade. Os agnosticistas não poderiam acreditar que o Deus feliz que não cuidava de nada que estivesse debaixo da lua, resolveu intervir, e botar o  nariz, na história humana. Pois fez!

Se Natal só fosse isso, talvez fosse até irrelevante. Mas é muito mais! Tirou o centro à MARGEM e chamou a margem ao PODER. Herodes não dormiria, como não dormem bem os opressores!

É a afirmação de que a plenitude da revelação do Verbo Encarnado passou por uma mulher. Maria do povo constituiu-se o epicentro deste terremoto de Deus na história, o Papa Francisco tinha razão. Era muito maior que um bispo. Convenhamos que o visitante que tomou lugar na mesa estava tomado de ‘más’ intenções, porque afinal de contas nas sociedades patriarcais – como as nossas – em que as mulheres estavam – e continuam! – “à margem” da humanidade e da administração do poder religioso, não foi tático – pelo menos – chegar deste jeito pela porta dos fundos. Esse jeito de chegar, com certeza malicioso, não foi cochilo porque Ele conhecia tão bem o coração e as estórias dos homens, como também conhecia o esforço destes varões de apagar os traços de mãe da face de Deus, que tantas vezes a Escritura punha em relevância.

O Deus Bíblico é frequentemente mulher e mãe, não homem! Vejam só um pedacinho: “Te gerei em meu seio, te amamentei, e te ensinei a dar os primeiros passos…” (Sl 137[8]).

Há quase dois mil anos, pela primeira vez, o patriarcalismo foi posto em crise! Quiçá nem se percebeu no centro do Natal, a verdade do Hino de Louvor – o TE DEUM – da Igreja Romana que diz textualmente: “Não te horrorizaste do útero de uma virgem”.

Mas natal não é só isso. O céu não será um balcão de acertos…

É a transferência incômoda do lugar de encontro com Deus para dentro da história, para o TEMPO, para o MUNDO. De agora em diante quem buscar Deus, na ponta dos pés, querendo “subir”, pondo a realidade entre parênteses, deixando tudo “fora” e des-ligando-se do mundo, para encontrar o Espírito, e-f-e-t-i-v-a-m-e-n-t-e não achará nada! Ao bater na porta do Céu ouvirá gritar lá de dentro: ” Não está!.. Se encarnou!…”

Foi esse também o recado na manhã da ressurreição: “Porque ficais aí, olhando para o Céu?…” E o eco se faz ouvir, de novo: “Se encarnou!”

Agora, João Evangelista é claro no seguimento de Jesus, “antes do culto e da oferta a Deus, a primeira condição é reconciliar-se com o irmão de carne-e-osso!” “O que fizeres ao menor… a mim o fazeis.” “É abraçando o irmão que vejo, que abraço a Deus que não vejo.” “Se encontrardes um irmão em necessidade e fechardes o coração, como poderá estar nele o amor de Deus?” É na relação com o outro no mundo que eventualmente encontrarei, no amor e na liberdade, o Totalmente-nós-e-Totalmente-outro: Emanuel: Deus conosco!

Jesus desfere golpes mortais ao judaísmo político-religioso, tal como ele se constituiu. Este golpe se inicia pelo lugar político de seu nascimento: Belém de Judá. Ficaria tão bem se tivesse nascido em Jerusalém. Jesus desautorizava Jerusalém – lá estava o Templo que era o lugar onde Deus fora ancorado, como o centro político-religioso.

Esta clara sinalização (distração de Deus não foi, por certo!) demonstra uma revolução religiosa que mais tarde Jesus explicitará e fará parte de sua condenação, quando diz a uma mulher pecadora: “Não é no Templo, nem nesta pedra (Lugar/espaço), nem no Sábado (Tempo) que se garante a presença (religiosa) de Deus, mas somente aqueles que em Justiça vierem em espírito e verdade.” Mudam-se os critérios do ato religioso!

Jesus será considerado herético, mais tarde pelas autoridades religiosas supremas do Judaísmo que o condenaram à morte: “Não escrevas – disseram a Pilatos – Rei dos Judeus!” Ele não se afinava à tradição religiosa!

*
Natal é mais ainda…

É a indicação clara de que agora todo o movimento “de redenção passa pela destinação dos pobres e excluíd@s. Os ricos até poderão decidindo no mundo sobre a vida dos pobres; mas eles mesmos estão alienados da decisão final sobre suas próprias vidas, não poderão decidir sobre o derradeiro gesto de posse ou não do Reino. O Reino de Deus é dado por Ele aos pobres: “Aos pobres é dado o Reino!”

O que Mateus 25, o que Lázaro, o que a criança, o que o Natal aponta é que à entrada deste “Menino” ao mundo instaurou-se um juízo, a partir do qual o que é feito a eles – aos pobres, aos indigentes, aos migrantes, aos enfermos, aos prisioneiros, enfim à periferia, a partir de agora, decidirá sobre o destino do mundo e o destino de cada um de nós. Esta transferência de poder final para fora dos meandros do poder assusta – o Poder perde sua centralidade – e subverte o jogo do próprio poder… Por outro lado, pensemos, se assim não fosse, o Reino com certeza pertenceria aos amigos do Rei, a alguns banqueiros, senadores, deputados e juristas…

Se a ordem dos Céus fosse a do mundo, estabelecida pelo neoliberalismo, os pobres deveriam ser exterminados como ratos, para não atrapalhar a o programa de Qualidade Total e dos ajustes fiscais das esferas celestes…

Essa a grande ironia do Natal. Nada irrita tanto os dominadores como não poder reduzir tudo e tod@s como apêndice e capacho de seus pés. As nações imperialistas não acreditam que possa existir algum pedacinho no planeta que elas não possam colocar as mãos, o nariz e as patas, transformando os países pobres em satélites, com o único fito de provarem a si mesmas a extensão infinita do seu poder. Nada irrita tanto um rico como lugares e pessoas reservadas que ele não os possa comprar e devassar a preço de dinheiro. Por causa disso tudo, os chefes dos Estados, os Mercadores, @s Cientistas, @s Especialistas, @s Religios@s, as Corporações e Cartéis estão sob a tentação de forjarem o Jesus do Presépio, como um menino inocente – de porcelana, de louça, de gesso e matéria plástica – que seja frágil demais! –  para evitar que ponha em cheque a injustiça travestida em Ordem!

No entanto, o Jesus bíblico, vivo nas ruas, racha as regras do jogo, e põe em crise o centro do poder a partir da periferia. Aqui começa um rastilho de pólvora de conseqüências inimagináveis para nós, há aproximadamente dois mil e treze anos atrás que nos separa de Belém.

Vale, com toda a certeza o esforço enorme dos governos, das empresas, do marketing, dos diretores lojistas, dos arrastões policiais tirando outros tantos menin@s e mendigos das ruas; bem como as igrejas de arredondarem o Natal, com quinquilharias, bolinhas de vidro, luzes, sinos, música, paz armada, cartões premiados e canto de crianças, as mais brancas possíveis. Afinal de contas, um Deus moreno, nascido de mulher (Gal4,4) intrometeu-se na ordem do mundo, desestabilizando as ordenações religiosas dos homens, metendo-se em política, fechando os céus para encontros oficiosos com Ele, e abrindo-os no mundo; a partir das coisas, das mulheres, dos homens, vetando posse e a decisão do rico sobre o Reino e abrindo-o ao juízo, poder e posse da mulher e do homem pobre…

Enfim, nesta economia de Mercado, esse Deus-comida feito PALAVRA-CARNE – à seco – é muito “duro de engolir”!

O Natal do Deus feito Palavra-carne implica no incômodo de aceitar que só a História da Salvação realizada por Deus, mas a Salvação da História. pela justiça e fraternidade, realizada por nós!

E, tudo isso aconteceu-nos, por que no Natal um Deus se fez menino pobre, moreno, esvaziado e se encarnou! Chamou-nos a um compromisso radical com o mundo e com a terra.

É também, por isso, que não raro, no Natal que celebramos nas ruas e nas Igrejas há um róseo menino branquinho, dorminhoco, desprotegido, em manjedoura, com luz calmante, com música sonolenta, feito de louça lisinha, à sombra de um velhinho espalhafatoso e mercadológico… que serve para esconder o sacrifício sangrento dos indígenas, negros, homossexuais, ciganos, estrangeiros, muçulmanos, deficientes, campesinos e empobrecidos.

Natal de Jesus é Natal da justiça, de uma nova ordem, um outro governo, um outro homem e mulher, um mundo possível gestado pela solidariedade extrema com a terra, com a história, com a libertação e com o definitivo derretimento da condição de subordinação e da tutela, pelo reconhecimento do direito de nascido de cada ser vivo, e pelos direitos inerente à saúde, à segurança, à educação, à liberdade, à democracia, ao amor e o compromisso de COMUNHÃO com todas as coisas da nossa mãe comum, a Mãe Terra e todo o Universo como expressão da presença de Deus em tudo e todos.
Feliz Natal com este Deus: Emanuel – cuja tradução é Deus com a gente!

Faremos, no Espírito, um outro Natal, o da comunhão, do cotidiano, do outro e outra serem mais do que nós…


* Doutor em Educação, filósofo e pedagogo. Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educação (GPMSE)

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