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O parentesco necessário entre machismo, homofobia e totalitarismos

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Tem sido difícil à população do país ligar algumas das grandes lutas pela democracia com bandeiras da diversidade cultural. Entretanto, nenhum país autoritário, nazista ou fascista deixou de ter como pauta fundamental de suas ditaduras, a difusão de práticas homofóbicas, divulgação da superioridade do macho, e a criminalização das mulheres como “vadias” e destituídas de qualquer outra razão do que “objeto de cama e mesa”.

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A razão disso, é que não se pode sustentar a mentira de uma tese necessária da afirmação unívoca da natureza humana pretendidamente universal, com a concorrência de outros modelos, quando se deseja prescrever uma norma “lógica” de certa ‘racionalidade’ que é tão somente uma palavra de ordem para construir a homogeneização de uma ordem política que  inicia e termina na divinização do Macho ocidental (ou oriental), como expressão máxima do poder divino. E as sociedades secretas, desde antes de Jesus, e após as pretendidas revoluções burguesas, inglesas e francesas (ou golpes) sequer conseguiram inovar  a institucionalização do republicanismo democrático com a participação de fato e de direito das mulheres como iguais e, portanto, diversas. Até o poder religioso reservou o monopólio da racionalidade do poder sagrado aos homens para legitimar a ordem social e arbitrária da terra com aquilo que Peter Berger menciona, o escondimento das raízes de fabricação arbitrária das sociedades, agora soldadas ao realíssimo eterno, para lhes conferir a desejada e plena legitimação, que ela – obviamente – não tem (Peter Berger: O Dossel Sagrado: elementos para uma sociologia da religião. Ed. Paulinas: 2004 ). E alguns marxismos, filiados ao pior dos iluminismos, com o qual Marx mantinha enormes diferenças, mostrava precisamente o vínculo  imprescindível de conectar às ‘armas ideológicas da morte'(Hinkelammert: As armas ideológicas da morte”, 1983) pela reificação das pessoas em mercadoria, e na fetichização das mercadorias como se estas fossem os sujeitos políticos (Veja Francisco Fernández Buey em “Marx (sem ismos)“, UFRJ, 1999.

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A “cura Gay” está exatamente onde precisaria estar: no centro das grandes lutas da burguesia como ameaça à democracia, e em nome de Deus! Lembram-se da Campanha do último presidente americano em exercício? Lembram-se  “A Marcha da Família com Deus pela Pátria e pela Liberdade”? Era, então, prenúncio do golpe militar.
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Vergonha, safadeza e psicopatia: é isso “explica” que os deputados da banda que se dizem dos “direitos humanos” fizeram sob o tacão do Feliciano. Geraram uma natureza humana reduzida a um universalismo por força da repressão a qualquer outra expressão de todas as outras humanidades, para reduzi-las à sua imagem e semelhança. Trata-se do sacrifício e assassinato massivo de todas as identidades pessoais, num processo que se equivale, e que é digno da mesma significação torpe, que as teses da “eugenia” buscaram e buscam impor às diferenças. Dá pena, sobretudo, a Ignorância absoluta desta comissão a qualquer conhecimento rigoroso que circula nas ciências humanas, sobretudo na Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, e toda a esfera do que diz respeito às antropologias culturais e filosóficas. Ademais essa comissão vive, como Touraine atribuía aos modernos em “bolhas de vidro”, de forma alienígena, não nasceram na terra, e eles mesmos precisariam de ser tratados de uma doença gravíssima, o “narcisimo ferido”! Incapaz de conviver com a alteridade, posto que elas os desarranjam em seus propósitos, atrapalham por sua liberdade, os contestam por negarem-se de ser apêndices do seu próprio eu. Hoje legislaram para curar os gays, e amanhã deverão fazer leis, se forem honestos, para que todos eles também sejam curados; eles que se dissolvem na paixão por si mesmos; e, neste sentido, ignoram a sexualidade em seu âmago, que não é outro do que RELAÇÃO (Martin Buber: Eu e tu. Saraiva: 2012), e, portanto, irrelacionáveis; segundo Buber só conhecem a relação Eu-Isto!
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As Associações da área de todas as Psis – Psicologia, Psiquiatria, Psicanálise e relacionadas; incluindo Medicina, Antropologia, Direito, todas deveriam pedir a anulação completa desta lei, por decência e credibilidade à sua profissão e aquilo que as ciências humanas em todas as suas gamas tem dito acerca da sexualidade humana e do direito de expressão livre. Se houver silêncio destes setores, a situação tanto da ciências, como das políticas Talvez não tenham percebido que se gera, em torno desta situação emblemática, uma desregulamentação grave da ética, com extensão para as tecnologias aplicáveis na pessoa humana: teríamos, por omissão, instaurado, uma vez mais, o império da barbárie, já em curso. Este grupo de deputados e desta comissão não entenderam que as “marchas” são contra eles e elas, contra o soliloquismo deles e delas, que não ouvem as ‘vozes das ruas’, contra aqueles(as) que usam do poder como arma letal contra a diferença, Começam, uma guerra sem fronteiras para com todas expressões outras de humanidades. Auto referentes que são, estão de mãos dadas com o terrorismo e a homogeneização de uma forma temerária e violenta – posta (redigo) em curso pela patologia da modernidade, que advogava uma democracia dos iguais, de uma única forma cultural válida das relações comunicativas de afeto e sexualidade, em face da imensa variedade de formas com que as humanidades se expressam em todos os tempos e espaços, e, o fazem  melhor do que os modernos, com ternura, afeto a compromisso: não por dever! Esta aprovação da cura-gay ignora que se possa ser mais humano através delas, e beberam na fonte mentirosa e falsa de que só na “heterossexualidade se tem salvação”! É óbvio que migrar daqui às marchas com “Deus” é apenas um passo, e terá que ostentar o  mesmo exclusivismo que Deus nunca teve, nunca tinha e não terá. Lembro-ma com saudades de Arturo Paoli, de que se Deus tivesse dado o Reino dos Céus aos ricos, poucos entrariam nele; muito provavelmente só os ‘amigos do Rei”; e, Deus, ao contrário, por amor à democracia, inverteu a lógica dos poderosos, e o deu de graça aos pobres de Graça, bem como a decisão sobre ele, para que se pudesse avançar pelo caminho da solidariedade que sonha com a reconciliação de todos e todas com tudo.
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Infelizmente, sob esta lástimável bandeira-projeto “cura-gay” se esconde de ordinário, com a mesma música e tom, todas as pautas guerreira e reacionárias, que confunde diferença com desigualdade; a última fonte de toda a opressão e dominação, santificação da submissão das mulheres, para conseguir virar objeto dos caprichos de uma pretensa superioridade ‘divina’  dos machos! Há, talvez nem todos saibam, porque os óculos ocidentais não conseguem ver o mundo sob seu próprio mistério, muito mais razões nas tradições bíblicas da natureza de Deus aconchegar-se mais à MÃE do que a da Imagem de Pai! – que também é -, sem as patologias criadas pela modernidade. Vejamos: “Eu te gerei nas minhas entranhas, te amamentei, te ensinei a andar… (…) ainda que uma leoa abandonasse seus filhotes, eu não te abandonarei, Israel!” O machismo e a superioridade dos homens é patologia, perversidade e não sintoniza nem de perto o que havia de grandeza em Jesus: a misericórdia – que semanticamente significa segundo Carlos Mester – ‘um coração sensível à miséria do mundo!-. Miséria aqui entendido como compartilhamento dos sofrimentos dos que são condenados à indiferença, aos maus tratos e a “diagnósticos estúpidos” de doenças que gostariam que existissem, para que nós próprios pudéssemos ser curados.  Talvez “explique” o medo à toda a diferença, e às Santas Inquisições que caçam bruxas, apedrejam mulheres, e exigem um comportamento que não nasce da natureza própria da qual cada um de nós, que se criou a si mesmo, por si, com todos os outros e outras e, que, por causa disso, nos fizemos inéditos. Quando adolescente lia um autor de minha preferência – Michel Quoist; e, nunca esqueci que ele dizia: “Todos nós nascemos originais, mas a maioria termina com cópia!” Cuidado, Feliciano! Cuidado com a seleção de pessoas… Cuidado com o polarismo: indivíduo ou comunidade, como se estas duas coisas não se comunicassem, não se abrangessem! Não se trata sequer se escolher um contra o outro; mas escolher ambos a favor de todos. Só será inteiramente belo, o ser que não negando a si mesmo como expressão de uma idiossincrasia que pertence à grandeza e variação das humanidades, reconhecida aliás pela tradição cristã sem ranço, de que a medida para amar todos os outros e outras, é a mesma com que se ama a si – quem não se ama, não ama os outros; Jesus não era individualista, ao contrário, mas foi ele que nos ensinou isso. Longe de poder considerar isso, um “individualismo” doentio versus o universalismo ou o coletivismo, não existirá afirmação política da democracia e da plena manifestação da universalidade, senão quando ela for capaz de acolher toda a diferença, sem desprezo e como valor. No entanto, o catecismo do republicanismo é cego, precisa de capachos que componham como colcha de retalhos, nas quais, elas e eles foram capturados sob alfinetes, para que apresentassem não a expressão da cidadania política ativa, incômoda e livre, mas uma coleção justaposta de borboletas que é horrenda por se sustentar na morte da cada uma delas, para ordená-las como conjunto necrófilo, lado a lado, negando sua capacidade de vôos livres e de asas dançantes: eis a democracia ocidental! Não tolera a liberdade de nada e de ninguém, dos indígenas, ciganos, estrangeiros, sem terras, portadores de diversidades físicas e mentais, as pessoas das comunidades GLBT. Impor uma só norma à vida, matar pessoas pelos costumes de padronizar ao gosto da (des)ordem burguesa é perverso e patológico. É impensável e, talvez, muito perigoso a Feliciano e seus comandados, pessoas de alma e coração engessados, imaginar que as outras sexualidades podem, expressar a ternura, o compromisso de pessoa a pessoa, o gosto de viver com ética e sentido; e que, portanto, expressem o mesmo sentido ético fundamental das humanidades nas quais se encontram a mesma orientação sexual de maioria.
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Existe, na relação homo afetiva, o que já se diz na ética do século IV de Aristóteles, o desejo do BEM, do BELO e da VERDADE – estes sim, valores universais, que não são prerrogativa do “clube do Feliciano”. Isso não é privilégio dos “curados” e das perigosas cruzadas de qualquer ética que se destróem tudo o que não conseguem dominar, para poderem ser massivas! Todo o contrário! Tão centrados estão os novos cavaleiros em cruzadas anacrônicas contra os pretendidos bárbaros, na execução dos rituais modelado e permitidos de sexualidades, que viraram monstros pelo seu narcisismo, que odeiam toda forma livre como perigosa à sua expansão. O Narcisismo longe do amor só ama o que se é, e, de forma cruel, quer tornar o outro amável sob condição antropofágica de se permitir fazer parte de mim. O outro não pode jamais subsistir como ser livre em si, e sim como instrumento, ferramenta e objeto do desejo do outro.
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Narcisismo, onde se encontrar é psicopatia. Não poderá jamais ser expressão de humanidade; menos ainda saborear a lindeza de relação de amor, pois justamente, mata amando, nem permite ser amado, nem permite relação; isso sim, – Feliciano – precisa ser tratado, é tara! Por justiça, se esta lei ‘sua’  for aprovada e regulamentada definitivamente, é importantíssimo você providenciar, urgentemente, outra, que trate os héteros a modo ocidental – pois estes sim, Feliciano estão gravemente enfermos e tentarão em seu narcisismo, matar os que não se lhes parecem! Ou há qualquer dúvida de que a posição heterossexual guerreira homofóbica, tenha outro coração e causa senão aquela de sua própria doença?
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Doença grave de redução das pessoas e de suas vidas a uma norma de costume e de expressão desvinculada de qualquer sentido ético, bagatelizando a vida, reduzindo pessoas às suas circunstancias, e colocando a condição de ser humano sob refém da dominação. Isso é, do ponto de vista de qualquer ética – e aqui, Feliciano, há consenso entre estudiosos da moral, que – a sua cura para os gays pisoteia no princípio ético mais importante assinalado de maneira extraordinária por Karl Otto Aple, que, diga-se de passagem não é nada relativista: “Precisamos conceder a todos os outros aquilo que eu mesmo reivindico como direito para mim.’
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Q minha expressão sexual seja considerada por mim como referencial para o meu viver, e a melhor maneira minha de expressar minha humanidade, implica aquela de conceder a toda e outra qualquer criatura humana, ter o direito de ser reconhecida por mim, e o direito de poder se expressar em sua natureza própria, a sua sexualidade pois somos seres de comunicação. Não posso em condições de igualdade jurídica, política e ética, reivindicar para mim, o que vou negar a qualquer um outro.
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Veja: só assim é possível corrigir desmandos e violências de uma sociedade que criou uma comissão, que se diz de direitos humanos, e que inventa uma “isonomia” a ser gerada a ferro e a fogo, e que foi criada por pessoas que não estão muito bem, e que, nega que as pessoas possam se expressar, cada qual, na sua natureza própria, aberto a todos e a todas, universalmente. A sociedade que sonhamos não separa Senhores e escravos deles. Não podemos chegar aos extremos que aponta a literatura dos antigos padres gregos que ironizavam a hipocrisia de que “Deus não dá a tarefa, para aqueles que fazem leis, de ainda terem a sobrecarga de precisar cumpri-las”. Parece que o espírito frívolo dos legisladores paulistas, expresso nesta matéria de “tanta relevância” podem ter legislado apenas para seres ‘inferiores” e “ímpios” e que jamais os atinja. Será mesmo? Sigmundo Freud, pelo que lembro da leitura dele, teria enormes e fundadas suspeitas de que se passa exatamente o contrário!

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De qualquer forma, Feliciano, não reconstrua aquilo que Orwell expressa na “Revolução dos Bichos”, de que “todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros…”. Frei Betto exprimia quase o mesmo na “Fazenda Modelo”. É não somente um risco promover uma nova cruzada de Deus, pela Pátria, pela Família e pela Liberdade, que torturou e sumiu e matou pessoas pela tortura. Essa Lei de vocês, não poderá ter qualquer sentido porque ela está cega, e por isso, dispensa em qualquer tribunal do mundo, alguém submeter-se a ela, desrespeita os tratados internacionais assinados pelo Brasil, que é matéria de nossa própria constituição. Alem disso, carece de decência, misericórdia e ternura;  e, sobretudo, de relação limpa com o outro e outra que são irmãos e iguais em sua diversidade. Falta, do espírito mais primordial do cristianismo, acordar para o acolhimento de qualquer pessoa humana, você que se diz Pastor, para validar a fé que proclama. E, convenhamos que, para que qualquer forma de sexualidade possa se tornar amorosa e divina. em face de qualquer pessoa, mesmo aquela com rituais da sexualidade de padrão, precisará da honestidade, capaz de estarmos lá, todinhos, para não torná-la um ato de promiscuidade e de mentira no que se expressa em corpo.
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As questões da sexualidade não são terreno privativo, não é uma exterioridade ou capa em nós, mas a condição mesma da minha condição humana (Merleau-Ponty). Não pense a sexualidade humana pela biologia ou função social, ela não merece ser meio, ela se confunde com toda a pessoa que é fim em si mesma. Não poderá, sem equívocos e imoralidade, uma pessoa poder prescrever à outra virer objeto de (re)engenharia comportamental feita por outro ser (des)humano: isso é doença!
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O  momento é de democracia e da Paz, não de democradura, que engane uma vez mais, num ato de violência imperdoável. Tenho a nítida impressão de que

estes senhores e senhoras que ocupam estas casas ditas do povo, ainda não compreenderam é que,  efetivamente,  por  estas e outras coisas, eles não nos representam; sequer tem legitimidade alguma para legislar e por isso montam comissões com maneirismos e interesses escusos que sequer poderão dizer claramente suas alianças, intenções e ganhos com isso.

Professor Luiz Augusto Passos

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