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Teothonio dos Santos: Carta a FHC

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Theotonio dos Santos

Theotonio dos Santos

CARTA DE UM AMIGO A FHC****

Theotonio dos Santos, autor desta carta ao seu amigo Fernando Henrique
Cardoso, é Coordenador da cátedra e rede UNU-UNESCO de Economia Global e
Desenvolvimento Sustentável, além de expoente da Teoria do Sistema Mundo*.*

Alguns destaques de seus sinceros comentários ao velho amigo:

A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o
seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada.

…um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de
reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo
ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal?

Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não
posso fazê-lo nem no campo cultural

Leia na integra para compreender as evidências e repasse para os que ainda
se iludem, se restarem:

*THEOTONIO DOS SANTOS: CARTA ABERTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO*

Meu caro Fernando,
Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula,
em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978
contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra,
rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda
metade dos nos 1960.

A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma
experiência política que reflete contudo este debate teórico. Esta carta
assinada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e
politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você
saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com
96% de aprovação.

Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos
chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos
discutimos, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da
população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram
profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da
população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas
bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependência:
Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000). Contudo
nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu
governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.

O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do
fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito
alcançando assim resultados positivos que não quer compartilhar com você…
Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real
que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial
vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações
superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO
APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada
pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores
desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. No
caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima
dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO
MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus
seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste
mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda
forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994
valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando
o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu
ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”,
indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os
capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O
fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou
chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça
petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”.
ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA
UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável
sustenta esta tese? Conclusões: O plano Real não derrubou a inflação e sim
uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação
brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo.
O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando
nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa
moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi
mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito – Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal.
Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60
bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando
entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal?
Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos
casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da
humanidade. E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados
“esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia
burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade
de seu governo. Um governo que chegou a pagar 50% ao ano de juros por seus
títulos para, em seguida, depositar os investimentos vindos do exterior em
moeda forte a juros nominais de 3 a 4%, não pode fugir do fato de que criou
uma dívida colossal só para atrair capitais do exterior para cobrir os
déficits comerciais colossais gerados por uma moeda sobrevalorizada que
impedia a exportação, agravada ainda mais pelos juros absurdos que pagava
para cobrir o déficit que gerava. Este nível de irresponsabilidade cambial
se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob
a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal
concentração de renda que esta política agravou drasticamente neste pais da
maior concentração de renda no mundo. Vergonha, Fernando. Muita vergonha.
Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se
identificar com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa
insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua
dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do
governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o
Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS
DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua
disposição os 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais
uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem
nenhuma garantia. Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar
divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro
mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum
recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de
Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em consequência deste fracasso
colossal de sua política macroeconômica. Sua política externa submissa aos
interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava
nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A
recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o
Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento
interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar
dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de
empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e
ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO
ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo,
mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para
pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo
brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e
um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a
aventura econômica que você e seu partido criou para este país.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não
posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido
Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só
museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos
500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não
criou uma só universidade e entrou em choque com a maioria dos professores
universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional.
Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um
medíocre presidente.Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar
esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter
que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a
qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o
capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo
brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da
imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está
claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso
povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o
verdadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a
luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política
progressista. E dessa política vocês estão fora.Apesar de tudo isto, me dá
pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho
tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de
Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do
povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso
internacional se é que vocês algum dia voltarão a frequentar este mundo dos
intelectuais afastados das lides do poder.Com a melhor disposição possível
mas com amor à verdade, me despeço.

*Theotonio dos Santos Júnior** (Carangola, 11 de novembro de 1936) é um
economista e cientista político brasileiro. Um dos formuladores da Teoria
da Dependência. Hoje é um dos principais expoentes da Teoria do Sistema
Mundo. Mestre em Ciência Política pela UnB e doutor “notório saber” pela
UFMG e pela UFF. Professor emérito da UFF. Coordenador da cátedra e rede
UNU-UNESCO de Economia Global e Desenvolvimento sustentável – REGGEN.*
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Postado por Evaristo Almeida no Economia &
Política<http://ecoepol.blogspot.com/2012/09/a-carta-de-theotonio-dos-santos-fhc.html>em
9/08/2012 04:27:00 PM
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