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Cada um por si e Deus contra todos!

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Está aberta a temporada de ‘caça’! É urgente uma política no PT, de outro jeito. Isso nos diminui a todos e todas.

Lembro o subtítulo do filme O Enigma de Kaspar Hauser do Werner Herzog, revisitado por Glauber Rocha, num curta metragem: Cada um por si de Deus contra todos.

A quem interessa? A quem, ou a quem(s), exatamente?

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Fogo amigo, no PT?

“Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que corre o sangue
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável.”

Brecht

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Que eu me engane! Este é o começo da nova onda antropofágica que costuma preceder campanhas! Serys expulsa; Lúdio interditado de recondução de mandato; Verinha, no emparedamento egípcio – lembra as vergonhosas sentenças da Inquisição! Só mudam os altares e os deuses: permanece os sacrifícios humanos para aplacar a ira divina!
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Não servem, tais encaminhamentos à política brasileira. Nem à unidade frágil da esquerda do país, que só reconquistou mandatos pela astúcia política inteligente do nordeste, contra reacionarismo de outras regiões ricas e muito ‘educadas’.
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Quando se corta a primeira cabeça, a guilhotina não para jamais. A violência gera mais violência. Todos e todas, sem exceção, estamos na fila de espera, – sem que sequer nos consultem acerca de nosso destino imposto! Os que nos destinaram tinham em mente que benefício? Ora, eles estarão, também, na fila de espera, bem como todos e todas que justificaram o corte da primeira cabeça que rolou formalmente, em nome da “violência legítima” – a mais sinistra e anacrônica das instituições que divinizada, carimba o nome de “Deus” esganado por seus zelosos sacerdotes amparados pela institucionalidade legal que apodrece os porões da cultura.
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Esta ação cheira o destrato reiterado dos direitos humanos, civis e políticos: direitos anteriores aos códigos e as declarações, sentido estrito da palavra. Esta ação é um atraso político, ainda que queiram vir a chamar de outro nome, e maquiar o discurso.
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Dalmo Dallari, em Cuiabá, semana passada, doze de maio, lembrava a extraordinária obra de Sófocles, “Antígone” que violando a ordem do Rei (Creonte), deu sepultura a seu irmão Polinice, desafiando todos os decretos reais e a praxe grega. O Rei Creonte, chamou-o para executá-lo: “Como se atrevera destruir as leis e a ordem do país?” Antígone respondeu:
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“A Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre         os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de          infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de                   ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram!”
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Era a conquista da cultura grega: não contingenciamento dos direitos, manipulados tantas vezes pelas  leis ou decretos. Estas leis eternas, nos conferem o direito a recurso universal de objeção de consciência, e não acatar e dobrar os joelhos frente aos ‘Creontes’ modernos e suas manobras ‘legais’.
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Antígone, destinado à execução sumária, por confissão da sua culpa, acrescenta:

Tais decretos (do rei e da polis), eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que           por isso me venham a punir os deuses! Que vou morrer, eu bem sei: é inevitável; e morreria                           mesmo sem a tua proclamação. E, se morrer antes do meu tempo, isso será, para mim, uma                             vantagem, devo dizê-lo! Quem vive, como eu, no meio de tão lutuosas desgraças, que perde com a            morte? – Assim, – (explica Sófocles) – Antígone, invoca a Dikê ou a Justiça (Sófocles, Antigone, IV               A.C.)
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Era a conquista da cultura grega: não contingenciamento dos direitos das pessoas humanas, – cidadania de nascimento -, direitos estes inerentes a qualquer SER que venha a este mundo revestido de pele humana, que torna, por isso, toda lei relativa, apenas uma ferramenta, acessório, ou, como diz Paulo Apóstolo: uma possibilidade pedagógica!

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Conquista grega, o jusnaturalismo do século IV ac. exposto por Sófocles, rasgado pela modernidade, é reiteradamentes negada nas instâncias de direção dos poderes, que parecem esquecê-lo. Orwell desmascarara, ironicamente, todo centralismo democrático cujo ordenamento escancara o que se esconde: “todos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros!”

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Precisamos muito conversar, menos entre os iguais, do que com os diferentes, sufoca-los, nos sufoca a nós, que também somos diferentes aos olhos deles e dos todos os outros seres humanos como nós! Como negar aos outros, o que reivindicamos para nós, sem hipocrisia e má fé? (Karl Otto Appel)
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Gostaria de estar errado, mas penso que está aberta a temporada de caça.
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E, infelizmente, apenas começa com a ‘caça’ e amanhã se continuará nos ‘caçadores’: a violência se fetichiza, adquire autonomia, se reproduz. É muito alto o preço que se paga para continuar a ser humano, aceitando nossa similitude até o fim, confessando que somos seres da falta, diz Todorov, e que temos necessidade absoluta não dos iguais, mas sobretudo dos diferentes, para podermos chegarmos em comunhão de uma melhor humanidade e liberdade possível.
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Não nos calemos! Pode sequer haver voz nossa garganta, amanhã pela manhã, já asseverava Brecht!
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A democracia liberal brasileira que tomou a política de plantão conseguiu varrer a dissensão: não se consegue viver a tensão da democracia, que é sempre conflitiva. É fácil governar por ditaduras, e conduzir processos por cima, através dos ‘iluminados’ que pretendem nos salvar de nós mesmo, sem nós; dado que – para eles – só existe uma crassa ignorância política nos outros.

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Lembro, contudo, que o País, entretanto, já não é o mesmo, nem mesmo o planeta. Nem as ditaduras mais cruéis tem resistido à luta da população contra o despotismo iluminado, que imaginou todo ‘resto’ de cidadãos como massa burra para manobras, e tiveram por isso, resultados eleitorais precários. Hoje mesmo assinaturas de um milhão e seiscentas mil pessoas dobraram a lei que em vinte e quatro horas iria sancionar a execução dos homossexuais.
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Vamos à luta para recompor a VIDA na conflitividade que ela tem. O que no varejo é violentado não fica no varejo. Não há coisas pequenas para a VIDA, para o AMOR e para a DEMOCRACIA. Este ato do Comite de Ética do Partido fere instâncias civis e políticas constitucionais no sentido mais radical do Espírito da Constituição, que supera inclusive a constituição escrita e positivada em letra. Fere, portanto, o poder democrático amplo e direto. por casuísmos e subterfúgios. Estabelece o dilema: santos de um lado e bandidos do outro. Todos somos as duas coisas. O perigo da guerra é reforçar em nome da paz, o demoníaco em cada um de nós, sem limites.
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Face ao ocorrido, não nos basta, como cidadãos da luta popular, dentro do PT e fora do PT,  nos ater a instrumentos instituídos: são insuficientes para deter as ações das grandes corporações e grupos econômicos. É preciso mesa de negociações tambem, mas sobretudo é necessário, manifestações nas ruas, nos parlamentos, nas feiras, na divulgação dos fatos que ferem a democracia, onde quer que  estejamos.

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Não se justifica no PT que construimos, retirar a cidadania ativa e ampliada desenhada desde a sua origem participativa, trocada pelos parlamentos restritos e institucionalidades que correm o risco de , pelas regras políticas desta cultura de morte, apenas regular privilégios. Leis, da forma como são produzidas e para que e quem são produzidas, estão muito distantes, de poderem ser sempre e em qualquer situação instrumentos legítimos, e salvaguardadores de direitos inalienáveis. Não era à toa que Paulo Freire falava de uma educação para quem e contra quem! BOFF há muitos anos atrás mencionou a teoria da repercussão da cultura e dos procedimentos que se propagam em todos os cantos do universo, e se repetem em acontecimentos mundiais, que tiveram deflagraram desastres mundiais a partir de um lugar restrito e pequenino, onde começou.
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Ozama bin Laden sem razão, sem fundamento procedimental e ético, foi sim assassinado! Não foram seguidos nem os ‘piedosos rituais obrigatórios’ à uma execução justa na guerra, para que se legitimasse sua morte, denunciava a ONU. Houve um sacrifício humano cruel e perverso na sua execução. O tempo agora no mundo aparenta repercutir como hora de martírios… A vida com tudo o que ela implica está contingenciada ao julgamento por cima, por patrulhas auto-missionárias da higienização moral, que não reconhecem outros seres humanos como iguais. Não nos permitamos ser donos de ninguém ou nos subordinar a um igual, sem culpa.
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Vamos todos protestar, ao mesmo tempo, nos conter, no quanto pudermos pela resistência corajosa e não violenta, em favor da afirmação da Paz: na resistência explícita, nos telhados, no cotidiano. A divisão do PT não ajuda os brasileiros, sejam eles pertencentes ao partido, ou não. Abre, ademais, um período de perseguição e dor, de sofrimentos em todos e todas. Não houve ampla consulta pública e debate nem sequer às bases do partido para esta decisão radical: o PT não merece o reconhecimento de uma democracia que tenha como instância final apenas instrumentos representativos. Situação possível em outras agremiações, diferente do conceito de democracia que nos propomos construir. .

Quem representa nas instancias no partido, tem uma obediência a ser cumprida em nome de uma representação que não é sua: é apenas servidor dela (Enrique Dussel). É preciso reagir contra isso, pois está em curso, na cultura global, a mais perversa das legislações de fingimento da democracia: a da representação divorciada dos que lhe conferiram poder. Democracia é o sistema de governo participativo cujo poder “físico, simbólico e material” emana do povo e só a ele pertence. O resto é empulhação
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Rosa de Luxemburgo asseverava: “Hoje o partido fala decide pelo povo, amanhã será a vez do comite central decidir pelo partido; em seguida, o politburo decidirá pelo comité central; e na manhã seguinte, o ditador decidirá por tudo por todos”.
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Faço pública minha lamentação. Solidarizo-me com companheiras e companheiros, injustiçados em seus direitos civis e políticos, e por isso, denuncio a (des)ordem que se pretende instaurar.

Cuiabá, 15 de maio de 2011

JUSTIÇA E PAZ!

Luiz Augusto Passos, Professor UFMT, Pesquisador PPGE/GPMSE, membro ativista dos primeiros núcleos do movimento dos trabalhadores, que em 1978, em São Miguel Paulista (São Paulo) que assentou bases das quais resultou o Partido dos Trabalhadores.

Republicado na Revista SINA

3 thoughts on “Cada um por si e Deus contra todos!”

  1. Cleofa Marlisa Flach disse:

    Prof. Passos, muito bom o texto e próprio para o momento que estamos vivendo, excluídos de todos os processos de consulta e decisão. Poucos decidem em nome de todas e todos.

  2. Cidinha disse:

    Você tem razão Passos. O PT já não discutie com as bases as questões polêmicas geradas dentro do partido. Enrique Dussel foi sabio em suas palavras quando disse que um representante deve obdiencia, pois ele apenas é uma representação do grupo, o que nao lhe dá o direito de ser um ditador e responder pelo grupo. Mas o PT ultimamente é assim mesmo. O companheiro Diá ganhou gloriosamente a Prefeitura com a representação do povo e a prefeitura era petista, isso sim soma-se numeros para o PT contar quantos prefeitos fez no país, entretanto, cruzou os braços quando Diá foi cassado por crime organizado. O partido foi multado com a cassaçao. Quem pagará pelos 50.000,00? Com certeza será Diá e sozinho. Ainda vamos apelar para o Partido Nacional. Esperamos! É preciso mudar essa prática petista, partido que escolhemos tanto tempo pela sua filosofia. Mudamos o Partido? Ou mudamos nós?
    Professora Maria Aparecida Rezende (Cidinha) UFMT/IE/DTFE

  3. Cidinha disse:

    Você tem razão Passos. O PT já não discute com as bases, as questões polêmicas geradas dentro do partido. Enrique Dussel foi sabio em suas palavras quando disse que um representante deve obdiencia, pois ele apenas é uma representação do grupo, o que nao lhe dá o direito de ser um ditador e responder pelo grupo. Mas o PT ultimamente é assim mesmo. O companheiro Diá ganhou gloriosamente a Prefeitura com a representação do povo e a prefeitura era petista. Serviu como base numerica parao PT contar quantos prefeitos fez no país, entretanto, cruzou os braços quando Diá foi cassado por meio de implantação e armação do adversario com a anuencia do Judiciário, Diá foi condenado pela “anuência implícita”, quer dizer pela hipotese de que pudesse ter participado daquilo que foi acusado. O partido foi multado com a cassaçao. Quem pagará pelos 50.000,00? Com certeza será Diá e sozinho. Ainda vamos apelar para o Partido Nacional. Esperamos! É preciso mudar essa prática petista, partido que escolhemos tanto tempo pela sua filosofia. Mudamos o Partido? Ou mudamos nós?
    Professora Maria Aparecida Rezende (Cidinha) UFMT/IE/DTFE

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